segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tijolos vermelhos de Roma


Outro dia escrevi aqui uma expressão da Bethânia em que ela estava inconformada com o Brasil que ainda tinha pessoas sem casa, sem moradia. E é das moradias no Brasil que vou tratar.
Moro em uma casa simples com problemas de encanamento, tinta descasacando, mato crescendo, em um lugar afastado em duas horas da minha querida Avenida Paulista. Mas é uma casa segura. Segura porque aqui não há problemas -pelo menos por enquanto - de enchentes, nem de desmoronamentos. E, independente de qualquer coisa, é uma casa. Sei que tem muita gente que adoraria estar no meu lugar, por isso tento não reclamar dessas situação. É longe? É! Mas com o tempo e com esforço as coisas podem melhorar, certo?
Há umas semanas o Brasil e o mundo tem vivenciado a situação dramática em que se encontra o Rio de Janeiro. Bastou uma chuva de uns três dias pra entristecer um estado cuja marca é a alegria. A população sofreu as conseqüencias de anos e anos de mau planejamento. A cidade foi crescendo de forma desordenada e não é só isso: quando ela já estava totalmente desordenada, parece que pouco foi feito para melhorar essa situação. Um dos morros em que houve desmoronamento era antes um antigo lixão. Lixão, não aterro sanitário. Lixão mesmo. Lixão exalando metano. Qualquer hora aquilo poderia explodir. Qualquer um menos informado sabe que o certo seria tirar as pessoas daquela situação e colocá-las em segurança imediatamente. Mas o que se fez foi o contrário: investiram em infra-estrutura na região com direito a pavimentação e escolas. Isso com certeza não iria incentivar ninguém a deixar a região.
Mas a culpa não é só dos políticos. Aquele papelzinho que você jogou na rua por julgar pequeno demais pra causar qualquer enchente contribuiu para essa situação. Assim como vc, muita gente teve a mesma idéia.
O que causa maior frustração e revolta é que os governantes esperam acontecer centenas de mortes (no Rio foram mais de duzentas) pra começar a tomar alguma atitude. E essa não foi a primeira - e provavelmente não será a última - vez que a chuva mostrou a fragilidade das cidades do Brasil. E não só no Rio. Em São Paulo, na Bahia, Alagoas, Santa Catarina...
Os tijolos vermelhos foram inventados pelos romanos. O Coliseu construído entre 70 e 90 d.C. utilizou esse material e ainda hoje está lá imponente - claro, com algumas deteriorações -, em contrapartida, existem pessoas vendo suas casas demoronarem não pela falha do material, mas por um mau planejamento. E pior, ainda existem pessoas, principalmente no norte e nordeste do país, vivendo em casas de pau-a-pique sujeitas a contrairem doenças perigosas, como a de Chagas.